Binance sofre o maior roubo de criptoativos da história, de US$ 6,3 bilhões

A Binance, maior corretora de criptomoedas do mundo, teve cerca de US$ 6,3 bilhões em criptoativos desviados de suas carteiras em 29 de outubro de 2026. O valor faz do caso o maior roubo de criptoativos já registrado, mais de quatro vezes acima do recorde anterior: os US$ 1,5 bilhão levados da Bybit em fevereiro de 2025.

A empresa diz que vai arcar com todas as perdas dos clientes e que quase metade do valor já foi congelada com a ajuda de parceiros. Empresas de inteligência em blockchain apontam para um grupo de atores maliciosos ligado à Coreia do Norte.

Como o ataque aconteceu

O roubo foi o desfecho de uma campanha de meses. No relatório preliminar divulgado em 3 de novembro, a Binance descreve uma sequência que começou com engenharia social contra engenheiros da empresa e terminou no serviço interno que assina as transações de criptoativos.

QuandoO que aconteceu
Junho de 2026Um engenheiro baixou um pacote de software adulterado ao configurar uma ferramenta de programação com IA. A Binance detectou o malware e trocou o equipamento, mas os atores maliciosos já tinham levantado informações sobre a equipe de carteiras.
SetembroPassando-se por recrutadores, os agentes maliciosos enviaram a outro engenheiro um arquivo malicioso disfarçado de teste técnico. O malware comprometeu o computador de trabalho e driblou as proteções da empresa.
20 de outubroA partir dessa máquina, e com ajuda de uma ferramenta interna de IA, os atores maliciosos chegaram aos sistemas de mais dois engenheiros e obtiveram credenciais de implantação (deploy).
29 de outubroCom essas credenciais, instalaram código malicioso na infraestrutura de carteiras e acessaram o serviço de assinatura de transações, movimentando fundos por fora do fluxo normal de saques.

Segundo a TRM Labs, cerca de US$ 6,36 bilhões saíram de carteiras da Binance em dez blockchains, a maior parte em uns 20 minutos. A carteira atingida foi uma hot wallet, conectada à internet. O co-CEO Richard Teng explicou que a maioria dos ativos dos clientes fica em cold wallets, offline, e só passa para a hot wallet quando há um pedido de saque.

O grupo também explorou o EIP-7702, mecanismo do Ethereum que permite a uma carteira delegar permissões de transação a contratos inteligentes. Assim, as transferências indevidas continuaram mesmo depois da suspensão dos saques, e o modelo de carteiras MPC (computação multipartidária) da Binance dificultou a revogação dessas permissões. O malware ainda tinha um mecanismo de autodestruição para apagar vestígios, segundo Teng.

A Binance afirma que não houve vazamento de chaves privadas. Já a Security Alliance (SEAL), organização sem fins lucrativos de segurança, estima que o grupo circulava pelos sistemas da corretora havia cerca de oito semanas quando executou o roubo.

FBI confirma autoria norte-coreana

As empresas de inteligência em blockchain foram as primeiras a apontar um suspeito. A TRM Labs atribuiu o ataque, com alto grau de confiança, ao TraderTraitor, unidade de elite de operações cibernéticas da Coreia do Norte e a mesma que o FBI responsabilizou pelo roubo à Bybit. Segundo a TRM, o ator malicioso conseguiu fazer com que o próprio sistema da Binance aprovasse as transferências. A Chainalysis e a Elliptic chegaram à mesma conclusão.

Em 31 de outubro, o FBI tornou a atribuição oficial: a agência afirmou que a Coreia do Norte é responsável pelo roubo e que os responsáveis vêm convertendo os ativos principalmente em Ether. O FBI publicou uma lista de endereços usados na lavagem e pediu que corretoras, serviços DeFi, operadores de nós e empresas de análise bloqueiem transações ligadas a eles.

A Binance não nomeou o autor e diz trabalhar com as autoridades para identificá-lo. Pyongyang negou envolvimento: em comunicado divulgado pela agência estatal KCNA, Kim Yo Jong, irmã do líder Kim Jong Un, classificou a acusação como provocação política.

Ressarcimento e retomada dos saques

A Binance suspendeu os saques logo após o ataque e reservou cerca de US$ 6,34 bilhões em recursos próprios para cobrir o prejuízo. Com a ajuda de parceiros do setor, conseguiu congelar ou interceptar cerca de US$ 2,85 bilhões dos ativos desviados, segundo o balanço mais recente da empresa.

Em 31 de outubro, a empresa informou já ter reposto mais de US$ 6 bilhões comprando tokens equivalentes aos roubados, o que corresponde a 98% dos ativos afetados. O restante corresponde a ativos de menor liquidez, mais difíceis de adquirir no volume necessário. O dinheiro veio de parte do SAFU, fundo de emergência em bitcoin de cerca de US$ 1 bilhão, do fundo de seguro de contratos futuros e do caixa da companhia. A Binance se comprometeu a recompor o SAFU.

Os saques foram retomados de forma gradual em 1º de novembro. A corretora também fez um novo registro de suas reservas para que clientes de dez criptoativos, entre eles BTC, ETH e USDT, possam confirmar que seus saldos têm lastro de pelo menos 1 para 1.

O que dizem os especialistas

Para Kok Tin Gan, cofundador e CEO da empresa de cibersegurança NyxLab, o caso levanta dúvidas sobre a ausência de controles de aprovação mais rígidos. Na leitura dele, uma única assinatura parece ter dado ao ator malicioso um token de acesso total, sem prazo de expiração, a uma hot wallet da Binance.

A lavagem do dinheiro não congelado começou rápido. Segundo a Elliptic, em menos de quatro dias os fundos já tinham passado por mais de 12 mil carteiras e 40 mil transações em 11 blockchains. Diferentemente do caso Bybit, em que a movimentação seguia um ritmo de expediente humano, desta vez o processo é automatizado, e a empresa espera que a conversão em dinheiro leve meses, via corretoras de balcão (OTC).

O fundador da Binance, Changpeng Zhao, ponderou que o caso é o maior em dólares, mas que o ataque à Mt. Gox envolveu uma quantidade maior de bitcoins. Andy Ward, vice-presidente da Absolute Security, avalia que ataques dessa escala tendem a se repetir, impulsionados pelo avanço da IA.

Um risco que vai além das criptomoedas

O TraderTraitor não mira apenas corretoras. Em 2026, a SentinelOne encontrou backdoors do grupo em uma empresa sem relação com criptoativos, alcançada por meio de um profissional de infraestrutura. As mesmas técnicas usadas contra o setor, portanto, atingem organizações de outros ramos.

A própria Binance diz ter barrado 57 ameaças suspeitas de ligação com a Coreia do Norte só em 2026, entre entrevistas de emprego falsas, pacotes de software maliciosos e tentativas de engenharia social. As técnicas abaixo aparecem em ataques anteriores a empresas de criptoativos, a maioria atribuída a grupos norte-coreanos. Duas delas, as falsas ofertas de emprego com testes técnicos e os pacotes de software adulterados, constam do relatório preliminar da Binance.

TTPs comuns em ataques a empresas de criptoativos

  • • Falsas vagas e trabalhos freelance: testes técnicos e projetos com código malicioso enviados por LinkedIn, Telegram ou GitHub (T1566.003, T1204).;
  • • Personificação de contatos confiáveis: supostos ex-prestadores de serviço enviam arquivos maliciosos pedindo uma revisão ou opinião (T1566, T1204.002);
  • • Reuniões falsas de Zoom ou Teams: às vezes com deepfakes de executivos, a vítima é levada a instalar uma “atualização” ou colar um comando no terminal (T1204);
  • • Falsos profissionais de TI remotos: contratados com identidades roubadas, usam o acesso interno para desviar fundos (T1585, T1078);
  • • Comprometimento de fornecedores e da cadeia de suprimentos: pacotes npm maliciosos, atualizações adulteradas e exploração de falhas em produtos de terceiros (T1195, T1199);
  • • Roubo de cookies e tokens de sessão: usado para contornar o MFA e operar contas legítimas na nuvem (T1539, T1550, T1078.004);
  • • Manipulação do fluxo de aprovação: uma interface adulterada ou infraestrutura comprometida exibe uma transação legítima enquanto outra é assinada (T1565);
  • • Evasão: uso de VPN comercial, atividade no horário de trabalho da vítima e limpeza de rastros (T1090, T1070).

Recomendações estratégicas

  • • Tratar como ativos críticos as estações de trabalho de equipes de DevOps, administradores de nuvem e aprovadores de pagamentos, com EDR e restrição à execução de código de terceiros;
  • • Orientar as equipes sobre falsas ofertas de emprego, convites inesperados para reuniões e pedidos para instalar atualizações ou colar comandos, permitindo que código externo rode apenas em ambiente isolado;
  • • Reforçar a verificação de identidade na contratação remota de funcionários e prestadores de serviço;
  • • Encurtar a validade das sessões em nuvem e monitorar acessos fora do padrão, como desativação de MFA e ações administrativas incomuns;
  • • Exigir validação por outra pessoa, e por outro canal, para operações financeiras e mudanças críticas.

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